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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Esqueça os Cinquenta Tons de Cinza, Descrubra o amor da maneira Cristã Ortodoxa



Em um mundo faminto pela verdade sobre o amor, milhões de pessoas se amontoarão nos cinemas no dia de São Valentim para assistirem a adaptação do livro Cinquenta Tons de Cinza de E.L James, e celebrarem o relacionamento abusivo que o mesmo retrata como um modelo de amor genuíno. 
Abuso equivalente ao amor verdadeiro?
Homens cortejando mulheres levando-as para verem um filme sobre uma jovem mulher sendo manipulada e ferida?
O que tal filme diz a milhões de pessoas que experimentaram abuso em um relacionamento?
São Valentim deve estar se revirando no tumulo.
Cinquenta Tons de Cinza é um livro que vendeu mais de 100 milhões de copias pelo mundo e é considera um dos livros mais bem vendidos de todos os tempos. Isso é parte da cultura popular e da vida de milhões de adolescentes, estudantes universitários, e adultos que o leem. Sem duvidas mais que um punhado de Cristãos Ortodoxos também o leram. O livro conta a historia de Anastasia Steele e seu namorado rico Christian Gey enquanto eles adentram um relacionamento que inclui inúmeras formas de manipulação emocional e abuso sexual. Cinquenta Tons de Cinza é um exemplo de como nossa sociedade mais do que nunca confunde poder e manipulação por amor verdadeiro.
A fantasia vivida pelos personagens em Cinquenta Tons de Cinza talvez pareça divertida e excitante, mas em realidade é vazia e desesperadora. Em realidade, Cinquenta Tons de Cinza nos mostra que o oposto ao amor não é odiar pessoas, mas usar pessoas. Quando se trata de amor, cada pessoa merece muito mais do que todo o mundo criado por E.L. James. A Tradição Cristã Ortodoxa pode nos fornecer um entendimento do amor que é mais durável e belo.
Neste dia de São Valentim esqueçamos Cinquenta Tons de Cinza e vamos descobrir o amor a maneira Cristã Ortodoxa.
Aqui vão três lições Ortodoxas para serem lembradas neste dia de São Valentim:
Amar Verdadeiramente Não é Usar - É Doar-se: O que o Cristianismo Ortodoxo ensina sobre o amor é muito diferente da ideia popular sobre o que é o amor. O amor popular se foca no que os outros podem nos dar. Isso é refletido em Cinquenta Tons de Cinza quando os personagens constantemente se usam e confundem tais ações com amor verdadeiro. Vendo as pessoas como objetos no lugar de verdadeiros ícones do amor de Deus é perigoso. Quando homem e mulher perdem seu valor intrínseco aos olhos dos outros, eles serão facilmente danificados. O verdadeiro amor Cristão Ortodoxo nunca se trata de usar o outro para se sentir bem sobre nos mesmos. Homem e mulher não são designados para usarem uns aos outros, mas para se esvaziarem de si mesmos e doarem-se uns aos outros. Essa é a fundação do amor saudável e é parte do ser criado a imagem e semelhança de Deus. São Basílio Magno nos diz que o verdadeiro amor é "...não procurar seu próprio beneficio, mas procurar beneficiar quem amamos, de corpo e alma.."
Quem Ama Verdadeiramente Pratica a Castidade: O Cristianismo Ortodoxo entende que sexo é bom e sempre foi um presente da criação. Entretanto, como qualquer presente, ele pode ser usado de maneira saudável ou de maneira não saudável. O ensinamento da Igreja nos mostra como usar o presente da sexualidade de maneira saudável. A Ortodoxia oferece alguns dos conselhos mais progressivos e saudáveis quando se trata de sexo. No coração deste conselho está a pratica da castidade. O amor popular diz que a liberdade para fazer tudo que nos desejamos sexualmente é saudável. Castidade diz que nós encontramos a verdadeira liberdade e o verdadeiro amor quando abrimos mão da noção de liberdade sexual desenfreada pelo bem maior daquele que amamos em um compromisso eterno. Por essa razão, castidade diz não para qualquer relação sexual fora do casamento sacramental e da mesma maneira, diz não a relações sexuais não saudáveis dentro do matrimonio, pois o verdadeiro amor esforça-se por algo mais belo que somente o prazer. Santo Agostinho de Hipona nos lembra que "Castidade, ou pureza de coração, possui uma gloriosa e distinta posição entre as virtudes, pois, por ela, o homem é capaz de ver Deus; pois o proprio cristo nos disse, "Bem aventurados os puros de coração, pois eles verão a Deus."
Castidade nos protege de sermos objetos e nos tornarmos insensíveis ao verdadeiro amor. Ela nos ensina a amar de uma maneira que dá sentido a nossas vidas. Quem ama verdadeiramente pratica a castidade, pois ele entende que por trás de cada "NÃO" que Deus nos dá, há um "SIM" maior e mais belo. Toda pessoa, sem exceção, é capaz de experimentar o "SIM" do verdadeiro amor que a castidade nós dá. Isso é amor verdadeiro, bem mais duradouro e sincero que qualquer cultura popular. E ao contrario da crença popular, castidade nos guia a uma vida sexual saudável. 
O Amor Verdadeiro Nos Torna Vulneráveis: O amor verdadeiro nunca é seguro. Ele nunca oculta a verdade decadente do mundo. Amar as pessoas não nos torna perfeitos, nem esconde nossas falhas. Amor verdadeiro nos torna vulneráveis e expõe nossa mais profunda fraqueza e também a transforma em algo muito mais belo. C.S. Lewis escreveu o seguinte: "Amar é ser vulnerável. Ame qualquer coisa e seu coração será torcido e possivelmente quebrado. Se quer mante-lo intacto você não deve da-lo a ninguém... Embrulhe-o cuidadosamente com hobbies e pequenas luxurias; evite qualquer envolvimento. Tranque-o seguramente no caixão de seu egoismo. Mas no caixão, seguro, escuro, sem sentido, sem ar. Ele vai se transformar. Não vai se quebrar; vai se tornar inquebrável, impenetrável, irremediável."
Um Cristão Ortodoxo entende que o amor é aquilo que nos torna as pessoas que Deus quer que sejamos. Esse tipo de amor é muito mais que sentimento e paixão. É muito mais que romance. É muito mais que sexo. O amor verdadeiro é uma escolha ascética de viver nossas vidas como um presente. Amor verdadeiro é a escolha de submeter cada aspecto de nossas vidas ao bem da outra pessoa. Dessa maneira, o amor verdadeiro não é apenas vulnerável mas é também a cura. Um dos maiores segredos de se viver uma vida Cristã Ortodoxa de amor, é que sendo vulneráveis, nos encontramos a alegria que transcende o sentimento comercial de amor que o mundo celebra todo ano no dia de São Valentim.
O tsunami da mídia sobre Cinquenta Tons de Cinza, o fenômeno comercial do dia de São Valentim pode ser esmagador. É fácil para um Cristão Ortodoxo esquecer tudo e não fazer nada. Afinal dia 14 de fevereiro é só mais um dia. Entretanto, cada um de nós fazemos bem em nós lembrarmos as palavras do Metropolita Kallistos Ware que escreveu "No sentido mais profundo, amor é a vida, a energia do Criador em nós." A historia nos mostra que essa energia possui a capacidade de mudar o mundo frente a todas circunstancias estranhas e esmagadoras. O amor verdadeiro tem mudado radicalmente inúmeras vidas e pode faze-lo de novo e de novo.
Então da próxima vez que alguém vier com Cinquenta Tons de Cinza, lembre-se de tomar o tempo para dize-los a verdade sobre o verdadeiro amor de acordo com a maneira Cristã Ortodoxa.

Texto traduzido a partir de Orthodox Christian Network

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Sobre o tal desânimo espiritual

Todo bom buscador de uma vida genuinamente cristã, vai passar, já passou ou ainda está passando por esse estado maléfico da vida. E pelo que bem sei, de minha própria vida você ainda está passando por isso.

Todos nós jamais esqueceremos da sensação que se tinha no começo da nossa busca pela fé, sentíamos vivo em nós a chama divina. Durante a Divina Liturgia, eramos capazes de sentir a presença de Deus enchendo nossas vidas, mas agora nos encontramos em um cenário diferente.

O desânimo chega, acompanhando de preguiça, desinteresse, falta de fé, indisposição para orar, vontade de desaparecer. Sintomas facilmente confundidos com depressão ou ansiedade mas que se tratam de algo bem diferente.


Evágrio Pôntico e outros Pais do Deserto, descreveram juntamente com outros 7 sintomas dos vícios espirituais descreveu o vicio chamado "Acídia" é o setimo vicio, ao qual é atribuído o "Demônio do Meio-dia", sendo esse o vício mais trabalhoso e massacrante de ser combatido, e também o vício que mais ataca de maneira violenta.

O demônio ataca o monge na quarta hora(10am) e permanece até a nona hora(3pm), manifestando sintomas terríveis, entretanto se não combatido, com o tempo, ele permanece em tempo integral. O que torna mais difícil fazer um "diagnostico" com antecedência é a dificuldade de encontrar estes sintomas que facilmente são confundidos com alguma doença.

Os sintomas causados pelo demônio do meio-dia são de maneira geral: Preguiça, aversão contra a vida que tem, contra o lugar que habita, pensamentos em fugir, mudar-se e o pensando que pode ter uma vida melhor fora dali.

Evágrio descreve com bastante humor o comportamento de uma pessoa acometida de acídia: O olho do preguiçoso se volta muitas vezes para a janela e seu espírito imagina as pessoas que vêm visitá-lo. Range a porta, e logo ele se levanta, ouve uma voz e olha curioso pela janela, de onde não se afasta, ouve uma voz e olha embasbacado para fora. Na leitura o preguiçoso boceja muitas vezes e sente-se poderosamente atraído pelo sono; desvia os olhos do livro e os esfrega, voltando-os para a parede. Depois olha de novo para o livro, lê algumas palavras, esforçando-se inutilmente por perceber o sentido das palavras. Conta as páginas do livro e examina a escrita. Censura a escrita e o feitio, e por fim fecha o livro e o coloca sob a cabeça para dormir. E dorme um sono leve, porque depois a fome desperta a sua alma, e ele a sacia

No livro "Despondecy" escrito pelo Schemamonge Gabriel Bounge, é possível classificar estes sintomas com exemplos em nossas vidas seculares, não monásticas. Ele descreve tais coisas como:
Frouxidão, indisposição, tédio, não conseguimos terminar nada que começamos, sentimos vontade de dormir por várias horas, de comer descontroladamente e o desejo de voltar a nossa vida afastada do cristianismo na esperança de se sentir como antes e por ai vai.

Outra característica notável, é a forma com que nos aborrecemos facilmente com coisas do dia a dia, se em nossa paroquia, alguém fere nosso ego, sentimos vontade de abandonar tudo e não voltar mais ali. Não temos respeito para as pessoas ao nosso redor, queremos dar algum sentido a nossa existência, passando por cima dos outros.

Mas a boa noticia é que os Santos Padres do Deserto, nos deixaram seus manuais práticos de como combater esse vício e expulsar este demônio de nossa vida. Entretanto, ao contrario de nossa vontade, o combate a acidia querer luta e não fuga.

A primeira pratica que precisamos é da paciência, nada do que vos listo aqui surtirá efeito imediato, muito pelo contrario, essas coisas podem agravar sua luta, as investidas das paixões serão cada vez mais violentas, mas é necessário ter paciência, quando um demônio não te derruba ele foge. Então tenha paciência e permaneça firme, nas praticas que seguem.

A segunda pratica é o combate a glutonia, quem não controla o estomago, é controlado pelas paixões. Deve-se jejuar, tendo em mente que o jejum não é feito para agradar a Deus, mas para beneficiar a sua busca espiritual, pois quem combate a glutonia, combate a luxuria, que é o vicio interlaçado a glutonia.

A terceira pratica é a oração. Sem oração, toda luta é falha, a oração é nossa comunicação direta com Deus. Mesmo que se sinta sem a menor vontade de orar, deve fazer isso, deve se forçar (O reino dos céus é tomado a força - Mateus 11:12). A oração deve ser feita na privacidade do seu quarto, sem que ninguém alem de você e Deus saiba, pois assim ela surte maior efeito. Procure rezar pela manha e antes de se deitar, e se possível no tempo que estiver livre.

A quarta pratica é a Salmodia. Através do cantar dos samos, nossos pecados são pulverizados, as tentações perdem o seu efeito sobre nós de maneira grandiosa. Muitos devem dizer a si mesmos que não possuem ritmo ou tom para tal. Mas isso não é necessário ao principio, pode soar meio bobo, mas você pode cantarolar no ritmo que conseguir. O que realmente importa é cantar os salmos prestando atenção nas palavras e guardando-as em seu coração.

A quinta pratica é a leitura diária das Epístolas e Evangelhos. Guardando a palavra de Deus em nossa e mente e coração, teremos noções de como agir, falar e viver de maneira correta. Sem a leitura da palavra é praticamente impossível viver o Evangelho de maneira genuína nós dias de hoje. Reserve a você um tempo antes da oração para ler e meditar na palavra, e se possível, procure homilias e textos que tratem do evangelho e epístola do dia.

A sexta pratica é a lembrança dos Santos do dia. Deve-se em suas orações pedir a intercessão dos Santos comemorados no dia e antes mesmo disto lermos um pouco sobre suas vidas. Dessa maneira nos inspiramos nas atitudes e vidas desses gloriosos homens e mulheres de Deus.

A sétima e pratica é o arrependimento. Para legitimar nossa vida, precisamos nos arrepender de fato de nossos pecados, devemos confessa-los diante de Deus e diante de nosso pai espiritual, para dessa maneira alcançarmos o perdão.

A oitava e ultima pratica é entregar-se totalmente a vontade de Deus. Da mesma maneira que nossos Santos e monges recitam a oração de nosso Senhor Jesus Cristo, você também deve fazer. Pegue o seu komboskini e docemente de todo coração diga "Senhor Jesus Cristo, filho de Deus, tem piedade de mim pecador." Dessa maneira, a graça de Deus que é mais poderosa que todos nossos esforços vai te tirar das garras deste mundo, das tentações. Admita que é fraco, que tem medo, que não é capaz de lutar só, que não tem a força de Jó nem o comprometimento de Santo Antão, diga a Deus, que não se permanecer só, você sera condenado, por isso precisa da doce misericórdia de Deus.

Para encerrar, saiba que não está só, saiba que sua luta será recompensada, que Deus não vai lhe abandonar, e quando conseguir vencer este vicio tenebroso, Deus lhe concederá grandes maravilhas.

Em Cristo, Rafael.


sexta-feira, 11 de julho de 2014

A Oração do Coração


"Senhor Jesus Cristo, filho de Deus, tem piedade de mim que sou pecador."

Assim começa, assim termina e assim se estende por horas. Uma simples e singela oração, que talvez seja uma das maiores colunas da fé ortodoxa. Uma oração tão simples e curta, tão velha quanto eu e você, mas com uma importância imensurável. Suas origens estão no seculo 5, começou logo depois da vida monástica e se tornou a base do ascetismo.

Um fato conhecido entre nós ortodoxos é que não é possível viver a ortodoxia sem o ascetismo, não é possível ter uma vida imersa nas maravilhas da igreja de Cristo sem jogar fora nossas paixões pecaminosas; e não possível fazer isso sem a oração do coração. Monges e monjas, sacerdotes e leigos, que buscam uma vida plenamente ortodoxa devem repetir essa oração diariamente.

Essa oração vem sempre associada ao "kombuskini" ou "chotki", este cordão da imagem ao lado. Um cordão simples, feito de lã, com nós que variam numericamente de acordo com sua experiencia com a Oração do Coração.
O numero mais comum de contas são 33, que arremetem a idade de Cristo.

Diferente do Rosário, uma pratica de Devoção Mariana do meio Católico Romano, o kombuskini tem como unica função auxiliar na concentração durante a pratica da oração. Jamais deve ser usado no pescoço ou na cintura de maneira que aparente ostentação. O mais comum e de coloca-lo no pulso quando não estamos usando, de maneira que nos lembremos de Deus a todo instante.

A oração do coração é pura e simples, o que a torna efetiva e fiel as escrituras. É uma oração que não possui palavras desnecessárias, não se prende em seu significado; Não é um meio de penitencia, não é uma forma de agradar a Deus, muito menos uma maneira de fazer pedidos. Não deve ser recitada em peregrinações e nem de maneira conjunta visando "fortifica-la". A Oração do Coração é um meio intimo e pessoal de praticar o ascetismo e de se conectar intimamente com Deus.

A Oração do Coração, quando feita de maneira sincera e humilde nos leva a mais perfeita pratica da "Theosis", onde nós, fieis, nos esvaziamos de nós mesmos, de nossa natureza pecaminosa e somos preenchidos por Deus, alcançando assim a santidade.

Quando um cristão alia uma vida de espiação, jejum, participação na Divina Liturgia, convívio com a comunidade, ascetismo, comunhão frequente e a Oração do Coração ele se coloca totalmente no caminho a "Theosis", ele passa a viver pela graça de Deus, destinado a abandonar suas paixões, pecados e misérias, sendo tomado totalmente pela graça de Deus.

Os mistérios proporcionados pela pratica dessa simples oração são inúmeros. E diferente do que se pensa, ela não é uma exclusividade de monges, é uma oração para todos. Então não perca tempo, abandone suas paixões, entregue um período do seu tempo a essa pratica maravilhosa. Não tema sua falta de fé ou humildade, pois só pela graça de Deus é possível alcançar essas qualidades.


sábado, 10 de maio de 2014

O meu (re)encontro com Cristo, a igreja e a ortodoxia

Ícone 'Jesus Bom Pastor'
 Bem caros amigos e leitores, resolvi voltar a escrever, mas antes quis começar do zero e retirar daqui os textos anteriores que já não estão em tanta sintonia com a minha vida. Muita coisa vem acontecendo ao longo dos últimos meses, fatos inesperados e inusitados, mas antes de retrata-los aqui quero lhes contar um pouco sobre a minha vida.

Nasci em uma família adepta do catolicismo romano. Professei essa fé durante toda minha infância, me lembro de que sempre tive um convívio religioso muito forte com os sacramentos. Fui batizado com apenas um ano de idade. Das lembranças vividas que tenho de minha infância, as mais marcantes se passaram na Basílica do Divino Pai Eterno em Trindade-GO.

Sempre fui uma criança de oração, sendo temente a Deus e preocupado com a minha conduta. Não falava palavrões, não desrespeitava meus pais e não questionava minha fé, que era muito forte. Lembro-me de sempre dizer a minha mãe que queria ser padre, que queria viver para Cristo. Mas infelizmente nem tudo sai como o planejado.

Minha catequese fora interrompida e meu avô materno acabara de descobrir que tinha câncer na garganta. Não mais haviam missas aos domingos e nem celebrações eucarísticas nas casas da nossa comunidade. Nossa vida familiar se tornou um emaranhado de preocupação e tristeza. Minha fé aos poucos foi sendo drenada e minha família foi sendo afastada da comunhão.

Meu avô pela graça de Deus foi curado, mas a fé católica a muito já se tinha partido do nosso convívio. No desespero por encontrar um conforto religioso, minha avó, avô e alguns tios se converterão a denominações protestantes e eu os acompanhei.

Depois disso, não houve mais nenhum certeza nem fé na minha vida. Mudei de Igreja tantas vezes a procura da minha fé que já não existia mais nenhuma esperança de reencontra-la. Me deixei levar pelo ateísmo, que felizmente não durou por muito. Aquela minha vocação de infância continuava viva e com ela a necessidade de Deus na minha vida.

Comecei a saltitar de religião em religião, buscando a resposta, buscando a verdadeira manifestação de Deus. Mas tudo que encontrava era vazio, tudo muito distante. Minha ultima tentativa foi o Movimento Hare Krishna. Passei algumas boas tardes cantando com eles, mas Deus ainda estava muito distante, tinha muito conhecimento sobre a doutrina, mas não tinha fé. Por mais que me forçasse a crer n'aquilo que lia, não conseguia.

Minha vida estava mais vazia que nunca. Já quase concluía que Deus não existia - e que tolo fui - queria encerrar aquele meu conflito religioso interno. Mas Deus age de maneira inesperada e inexplicável. Recordei-me dos meus estudos sobre a Igreja Ortodoxa, sobre a sagrada tradição da fé cristã oriental. Me afundei nos estudos e nas pesquisas sobre a Santa Ortodoxia.

A cada texto que lia, crescia em meu coração um calor, uma chama semelhante aquela que sentia pelo sacerdócio quando era apenas uma criança. Encontrei em minha cidade a Paroquia São Nicolau. Mal podia crer que Deus havia me concedido essa graça. Liguei na paroquia e marquei dois dedos de prosa com o pároco.

Cheguei na Paroquia com uma hora de antecedência, a igreja estava vazia e quase escura, iluminada por algumas velas. Me sentei no penúltimo banco e comecei a rezar contemplando um ícone de Jesus Crucificado. Aquele foi o momento que Deus mudou minha vida, me tirou da lama para a luz. Foi ali que a minha historia havia de começar.

Olhando para aquele ícone, Deus me clarificou seu sacrifico e sua paixão, Deus me mostrou que seu amor por nós foi maior do que toda a criação. Me senti arrependido, me senti tocado. Lagrimas sinceras corriam pelo meu rosto, foi aquela a hora em que o Bom Pastor buscou de volta sua ovelha perdida.

Minha conversa com o Pároco - hoje meu Pai espiritual, Pe. Rafael Magul - foi rápida, fui recebido a igreja ortodoxa pelo santo crisma, me senti entrelaçado, me senti uno com Cristo. Foi ali que tomei minha primeira eucaristia, foi ali que escolhi meus padrinhos, foi ali que aprendi o valor da Sagrada Tradição Ortodoxa. Foi ali que de fato me tornei um cristão.

Me sinto mais do que nunca chamado a presença de Deus, me sinto chamado a servir a Santa Igreja, que é Una, Santa, Católica e Apostólica. Hoje tenho plena alegria, gratidão e amor a Deus. Minha fé ainda é pequena, mas sei que ainda tenho um longo caminho a trilhar, hoje finalmente seguindo os passos de Jesus Cristo, que é Deus encarnado. Sinto-me na plenitude, no amor e na comunhão e espero finalmente poder viver unicamente para Cristo, como Ele desejar.